
Estocolmo, Suécia, 13 de agosto de 2002. Seria mais um dia normal na capital do civilizado e pacato país com um dos melhores IDH do mundo, não fosse uma "epidemia" de cefaléia e o estranho comportamento dos aparelhos eletrônicos: eles simplesmente não desligam, mesmo quando desconectados da tomada. Prenúncio de fenômeno ainda mais extraordinário: os mortos revivem - inclusive os falecidos até alguns meses antes. De repente, eles se movem, andam, deixam as câmaras de refrigeração dos hospitais, falam (ou balbuciam algumas palavras, como crianças) e podem ser ouvidos arranhando a tampa de suas urnas funerárias, nos cemitérios.
Não se trata de zumbis devoradores de cérebros e transmissores de sua condição de "nem vivo, nem morto" por meio de mordidas. Pelo contrário, os "redivivos" - como passam a ser oficialmente chamados pelo governo - são entes queridos (o avô, o marido, a esposa, o filho, o neto) que todos gostariam de ter de volta ou ao menos por mais um tempo para corrigir erros, pedir perdão (ou perdoar), prorrogar a companhia em nome de momentos felizes e de afetos que a morte impediu de repetir ou de cultivar.
Esse não é um livro fácil. Essa foi a única coisa que eu pensei quando acabei de lê-lo e devo confessar que as coisas ainda estão confusas na minha cabeça. Não por não ter entendido uma ou outra parte, mas por não saber o que pensar. Quando li Deixa Ela Entrar tive a certeza de que era um daqueles livros que mudam nossa vida, que marcam o que veio antes e depois dele, que te fazem subir um degrau na literatura e passar a procurar outros que estejam a altura. Isso não aconteceu com tanta força com Mortos Entre Vivos e acho que foi isso que me decepcionou no início ou pelo menos até decidir não compará-lo com nenhum outro livro e aceitar que ele foi escrito assim e ponto.
Quando a gente compara a gente corre o risco de se decepcionar e deixar de aproveitar tudo o que o livro tem a nos ensinar. Depois que coloquei isso na minha cabeça passei a apreciar esse segundo livro do Lindqvist como ele é: um livro que te faz pensar no quanto as coisas podem ser diferentes do que a gente acredita numa outra realidade; no quanto outros contextos podem mudar nossas crenças. É um livro que te apresenta outro mundo.
Imagine perder um ente querido e ele voltar à vida. Agora imagine ter que lidar com esse ente querido em avançado estado de decomposição batendo na sua porta como se tivesse acabado de voltar do trabalho. Imagine ter que aceitar que aquela pessoa que voltou não é a mesma, tanto por dentro quanto por fora, que aquilo é só uma casca e que o que ela era está perdido em algum lugar.
O que não me decepcionou de forma alguma foi como Lindqvist colocou isso em seu livro. Seus personagens são reais. São pessoas como eu e você, que levam uma vida normal, com seus próprios traumas e problemas. São pessoas que passariam despercebidas por você na rua. Nada que as diferenciasse da multidão. No entanto, são pessoas que vêem sua realidade virando ao avesso ao ter que lidar com pais, mães e filhos que voltam da morte com olhares gélidos fixos no nada. São pessoas que tem que enfrentar a volta de quem já se foi e isso é desesperador. Ler isso é desesperador. Ainda mais por ser uma situação tão extraordinária escrita de forma tão... Natural.
São zumbis que não atacam humanos para comer seus cérebros ou o que for. São apenas pessoas mortas que voltaram à vida sem nenhuma razão específica. E o que fazer com isso? Como aceitar que os revividos são nossos parentes, que aquele cadáver esverdeado parcialmente comido pelas larvas é o tio que não compareceu a festa de natal em família? Ou que aquele cadáver seco sem expressão é o seu filho de oito anos que sofreu um acidente dois meses antes? Como aceitar que aquele parente não é mais o mesmo? Como contar ao seu filho que a mãe morreu e voltou à vida, mas não é mais a mesma? São conflitos humanos enfrentados por humanos. Esse é o ponto principal. E é isso que dá graça ao livro, é isso que te faz querer continuar lendo, entender todos os porquês.
Mortos Entre Vivos te apresenta a morte em todos os aspectos: o que vem antes, durante (como fica a vida dos que ficam) e depois. E é o depois que te faz questionar o que você acredita ou no que você acreditaria se de repente seu pai saísse do túmulo e te fizesse uma visita. Será que é só isso? Será que é só morrer e ser enterrado? Ou será que, lá no fundo, ainda existe algo de nós? Será que a morte vem como uma figura que nos amedrontava quando éramos pequenos ou será que é só isso? Será que é tão simples assim?
No geral, esse é um livro para os que apreciam livros que te fazem pensar um pouco fora da caixa.
Fico feliz que um autor tão bom tenha pelo menos um pouco de reconhecimento aqui no Brasil, com três quatro livros já publicados (e quem sabe mais alguns no caminho, não é?), mas devo atentar para alguns erros na edição. Nada muito sério, mas que indicam falta de atenção de parte da editora, como “ele foram”.